A Lei Moral e o Inimigo: Porque C. S. Lewis Afirma que o Cristianismo Começa com a Consternação
Se este título acendeu sua curiosidade, prepare-se para mergulhar ainda mais fundo na mente de C. S. Lewis. O livro Cristianismo Puro e Simples não é apenas uma defesa da fé, mas um convite radical para confrontar a “única coisa, e somente uma, em todo o universo, sobre a qual sabemos mais do que poderíamos extrair da observação externa” — a Lei Moral. Lewis o leva do “saguão de entrada” da decência comum à descoberta de que somos “inimigos dessa bondade” que mais necessitamos. Prossiga na leitura para desvendar como Lewis, o ex-ateu, transforma a simples briga sobre “o certo e o errado” no choque filosófico que prova o universo como um “território ocupado pelo inimigo”
A obra em análise é “Cristianismo Puro e Simples”, do aclamado intelectual e escritor Clive Staples Lewis (C. S. Lewis). Lançado em sua forma original entre 1942 e 1952, este livro transcende a apologética comum para oferecer uma síntese rigorosa e acessível da crença que tem sido “comum a quase todos os cristãos de todos os tempos”. Lewis, um ex-ateu e notável professor das Universidades de Oxford e Cambridge, assume a posição de um leigo para destilar os fundamentos da fé.
A contextualização da obra é essencial para sua interpretação profunda. O conteúdo nasceu como uma série de “Palestras de rádio” (Broadcasts Talks) transmitidas pela BBC entre 1942 e 1944, um período em que a Grã-Bretanha estava sob o bombardeio da “Blitz” na Segunda Guerra Mundial. Lewis, que havia servido na Primeira Guerra Mundial, dirigia-se a uma audiência exausta e em luto, que precisava ouvir sobre fé em meio à “destruição indizível”. Essa gênese explica seu tom popular e conversacional, evitando o ensaio acadêmico, mas preservando uma seriedade incomum para literatura oral.
O insight mais poderoso de Lewis é a sua abordagem para demonstrar que o universo deve ter um sentido, começando pelo “Certo e o Errado como indícios”. Ele argumenta que, ao brigarmos ou darmos desculpas pelo nosso mau comportamento, apelamos inevitavelmente para uma Lei da Natureza Humana (Lei Moral) que esperamos que o outro conheça. Essa lei não é mera convenção social, mas uma verdade real, como a matemática, que prova a existência de Algo ou Alguém que está por trás do universo. O ateísmo, nesse contexto, revela-se “muito simplista”, pois a própria capacidade humana de julgar o universo como injusto implica a existência de um padrão de justiça.
A narrativa se desenvolve a partir dessa premissa lógica para a chocante doutrina cristã (Livro II), apresentando o mundo sob a metáfora de um “território ocupado pelo inimigo”, e o cristianismo como a história da “invasão” do rei legítimo, disfarçado, que chama os homens a uma campanha. O argumento atinge seu ápice na “Alternativa Chocante”: as reivindicações de Jesus de perdoar pecados e de ser Deus são tão radicais que ele deve ser “o Filho de Deus; ou então um lunático ou algo pior”.
Lewis convida o leitor a entender que o objetivo final do cristianismo não é a simples moralidade (Livro III), mas a transformação radical do ser. Ele diferencia o Bios (vida biológica, corruptível) da Zoé (vida espiritual, não criada). O Filho de Deus se fez homem para que os homens pudessem se tornar filhos de Deus, um processo que envolve a entrega total do “ego natural” para ser substituído por um “novo ser”, um “pequeno Cristo”. Este é o caminho da “perfeição”, que, embora pareça impossível, é na verdade mais fácil do que a tentativa frustrada de ser “bom” por esforço próprio.
O livro de Lewis é, portanto, um mapa teológico prático, crucial para evitar ideias erradas sobre Deus, estruturado em uma progressão lógica implacável, mas entregue com a clareza e o humor de um narrador que entende o leitor. Sua relevância reside em sua capacidade de ancorar as mais profundas doutrinas da Trindade (Livro IV) no chão da vida cotidiana, revelando que a “vida tríplice do Ser tripessoal está realmente se dando nesse pequeno quarto comum onde uma pessoa comum está fazendo suas orações”.
Se a sua busca pela verdade o levou, inevitavelmente, a confrontar a distinção entre o certo e o errado, então você chegou ao “saguão de entrada” do cristianismo puro e simples. Lewis o descreve não como um destino final, mas como uma “sala de espera”, um ponto de partida a partir do qual várias “portas se abrem para diversos cômodos”. Contudo, mesmo neste saguão, é fundamental “começar a tentar obedecer às regras comuns a toda a casa” enquanto busca a porta da verdade.
O que torna essa entrada tão crucial é o reconhecimento da Lei da Natureza Humana (Lei Moral). Ela é a “única coisa, e somente uma, em todo o universo, sobre a qual sabemos mais do que poderíamos extrair da observação externa”. Enquanto podemos observar pedras e árvores apenas de fora, o ser humano conhece a si mesmo “por dentro”, revelando essa Lei que lhe diz o que ele deve fazer, e não o que ele de fato faz. Essa Lei Moral se torna a melhor pista sobre o Ser por trás do universo, um “Poder por trás dos fatos” que está “intensamente interessado na conduta certa” e que é implacável.
É aqui que reside o dilema aterrorizante: esse Ser é a Bondade absoluta, mas, ao mesmo tempo, “estamos nos tornando inimigos dessa bondade todos os dias”. O Poder que é o “único alento possível” é também o nosso “terror supremo”, e não podemos escapar da nossa condição. Lewis adverte que o ateísmo é “muito simplista”, mas a moralidade cristã, em sua forma pura, também não oferece soluções fáceis, pois ela “simplesmente não faz sentido até você encarar o tipo de fatos que descrevi”.
Portanto, explore a fascinante jornada de Lewis no Livro I, onde ele nos força a confrontar o fato de que “nenhum de nós observa a Lei Natural de fato”. Abrace o desalento da autodescoberta para entender por que, para o cristianismo, Deus não é “afável” nem “complacente”. Você descobrirá por que a religião cristã não começa pelo consolo, mas sim com a consternação, sendo necessário passar por esse desalento para que, buscando a verdade, você possa, afinal, encontrar a esperança.
